Obama

Elegia ao racismo | a opinião da escritora Sofia Afonso Ferreira

Duas semanas depois de tantos comparecerem nas manifestações em Portugal contra Trump, pergunto, quando é que foi realizada a última manifestação pela comunidade no país? Onde pára a sua representação no governo, no Parlamento, nos cargos de decisão, nas universidades, nas empresas?

O mundo, incrédulo, chorou a vitória de Trump. Depois o choro deu lugar a uma raiva que se disseminou na imprensa, nas redes sociais, em manifestações. Trump é virulento, machista, racista. Certo. Mas algo de errado se passou na administração Obama para acabar na eleição de Trump.

Recordamos a história dos EUA e a longa batalha contra o racismo e pensamos no legado de Martin Luther King, de Malcolm X, décadas de luta acesa que culminaram na eleição de Obama.

Li com prazer o ensaio ‘Eulogy for Nigger’ do escritor norte-americano David Bradley, vencedor da última edição do prémio Notting Hill Editions Essay Prize [link: www.nottinghilleditions.com], um dos mais importantes prémios de ensaio em Inglaterra. Recomendo a leitura. Bradley oferece uma poderosa reflexão sobre o ‘enterro’ da palavra ‘nigger’ no seu país – em vez da melhoria das condições e um maior equilíbrio e justiça social, a sociedade americana esgota a sua força em questões menores como a abolição do termo. Reconhecermos e condenarmos o uso de um discurso xenófobo não é só louvável como imprescindível, mas isso é apenas uma questão secundária face a outras de maior importância.

Quando Obama ganhou as eleições (…), o país do Klu Klux Klan passava em décadas das trevas à eleição de um presidente negro. Soava a mudança e das fortes

Quando Obama ganhou as eleições, pensei que o que imaginara apenas enquanto futuro, era-me oferecido presenciar naquele exacto momento – o que Obama proponha para o país era secundário perante o que a sua eleição poderia representar em termos de avanço e diminuição de desigualdades na sociedade, eu estava toldada pela ideia de futuro, esse futuro particular. Um ‘nigger’ na Casa Branca – o país do Klu Klux Klan passava em décadas das trevas à eleição de um presidente negro. Soava a mudança e das fortes.

Anos depois analisamos o que mudou. Uma maior participação e melhoria das condições da comunidade afro-americana? A redução dos guetos? Do estigma? Diminuição dos números e estatísticas de crimes e violência da mesma comunidade? E, talvez o mais importante, o aumento salarial e nível de vida e oportunidades face à comunidade WASP? Não, nada mudou.

Continuamos a discutir palavras em vez de almejarmos mudança e futuro. Somos todos ‘Yes, we can’, mas só quando dá jeito

Duas semanas depois de tantos comparecerem nas manifestações em Portugal contra Trump, pergunto, quando é que foi realizada a última manifestação pela comunidade no país? Onde pára a sua representação no governo, no Parlamento, nos cargos de decisão, nas universidades, nas empresas? Depois de uma história de séculos de colónias em África, uma ligação tão forte que perdura até aos nossos dias e resultou numa sociedade harmonizada em termos culturais, parece que também nós continuamos a discutir palavras em vez de almejarmos mudança e futuro. Somos todos ‘Yes, we can’, mas só quando dá jeito.

SofiaAfonsoFerreira

Sofia Afonso Ferreira
escritora (sofiafonsoferreira@gmail.com) | Foto: Carlos Ramos

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