Democracia e Pós-Democracia num mundo político em mudança

Democracia e Pós-Democracia num mundo político em mudança

Colin Crouch, considerado o pai da pós-democracia, afirmava numa conferência no ISCTE, em Lisboa, que as instituições democráticas ainda existem, mas já não estão no centro do jogo de poderes.

A democracia passa por uma inquestionável crise, em função do aparecimento e domínio de um neoliberalismo que foi ganhando terreno e força no mundo global. Há dias, o sociólogo britânico Colin Crouch, considerado o pai da pós-democracia, afirmava numa conferência no ISCTE, em Lisboa, que as instituições democráticas ainda existem, mas já não estão no centro do jogo de poderes.

Eu vou mais longe que Crouch. Estas instituições estão, em muitos casos, minadas pela corrupção, o maior cancro dos regimes políticos, deixando de estar ao serviço dos cidadãos, para estarem ao serviço do capitalismo selvagem, da procura do lucro desenfreado e não raras vezes ao serviço de interesses obscuros.

Esta mudança de paradigma não é mais que a transformação à escala global da democracia em pós-democracia, sendo ultrapassados os limites da ética e colocando-se em causa o estado de direito democrático.

A esta mudança está associada a crise financeira de 2008, que revelou o efectivo poder que os bancos têm sobre os cidadãos. Eles foram os causadores da crise, mas curiosamente, ou talvez não, a prioridade dos governos foi salvá-los, muitas vezes, com dinheiro público.

E isto leva-nos para outra dimensão: é uma ilusão falar de dinheiro público. Este não passa, tal como dizia Margaret Thatcher, de dinheiro proveniente dos impostos pagos pelos cidadãos.

Foram os bancos que levaram milhões de cidadãos e as suas famílias a passar por uma das maiores crises financeiras dos últimos 100 anos, muitos perderam todas as suas poupanças de uma vida, os seus carros e até as suas casas, mas, em acto contínuo, foram obrigados, com o dinheiro dos seus impostos, a salvar os bancos que destruíram as suas vidas e das suas famílias.

Mas não foi só a crise financeira que alterou o status quo político em que viveu a Europa e o Mundo nas ultimas décadas. A insegurança, ligada indubitavelmente ao crescimento crescente do terrorismo no mundo, também contribuiu de forma activa para o crescimento dos movimentos populistas.

Era impensável há 20 anos que Lula pudesse chegar ao poder no Brasil ou que mais recentemente Donald Trump fosse eleito presidente dos EUA, que Marine Le Pen pudesse ter estado na discussão pela vitória nas eleições presidenciais francesas, que Berlusconi chegasse a primeiro-ministro, e que mais recentemente, por contraposição ao mesmo Berlusconi, o comediante Beppe Grillo chegasse a ser terceira força política em Itália, que o Brexit se tivesse tornado uma realidade sufragada em referendo pela maioria dos britânicos ou que a Catalunha tenha estado a um pé de se tornar independente não fosse a constituição espanhola não o permitir.

Estas mudanças contribuíram para que os partidos tradicionais e as elites reflectissem sobre os erros cometidos, tendo passado a olhar, com mais alguma atenção, para o que se passava em sua volta, de forma a percepcionarem o perigo que os movimentos populistas representam para a cultura, mas sobretudo para a economia.

Porém, tenho dúvidas que o venham a conseguir a tempo de emendarem a mão de forma a travar os avanços populistas. Neste sentido, acredito na possibilidade dos movimentos de extrema-direita ganharem expressão política, ascendendo ao poder gradualmente, sobretudo através de coligações políticas de governo, com os problemas que daí advêm, nomeadamente a acentuação do xenofobismo.

Porém, estes movimentos não estão imunes de passarem a ser dominados por outras elites que, tal como as que sustentaram os partidos políticos tradicionais durante os últimos 70 anos, também não olham com bons olhos para a democracia.

E aqui voltamos a um impasse. Afinal, novos e tradicionais partidos não são assim tão diferentes no seu modus operandi político.

E o que poderá fazer a diferença?

Eu penso que o futuro pode passar por um projecto político social-liberal – que deixarei para uma abordagem mais pormenorizada numa futura crónica –, mas confesso que não acredito em fórmulas mágicas.

Penso que acima de tudo é necessário aprender com os erros do passado, encontrar um caminho no sentido da dignificação humana, que não tem de ser obrigatoriamente novo, nem desprovido de contradições sociais.

Há um passado que tem de ser resgatado sem preconceitos. A história tem-nos demonstrado que não existem, nem pouco, mais ou menos, fórmulas perfeitas de governança.

Vivemos tempos credores de uma reflexão profunda. Um tempo em que nada deve ser menosprezado, desde o pensamento progressista de Karl Marx, que defendia a emancipação social, política e humana, até à democracia liberal, que privilegia a defesa das regras, previamente estabelecidas, do jogo político e económico.

Após este novo tempo em que os maiores protagonistas passaram a ser meros actores políticos, este é o momento em que não podemos dispensar a contribuição do pensamento dos mais diversos, controversos e polémicos autores como Marx, Hegel, Hobbes, Rousseau, Kant, Gandhi, Arne Naess, Popper, Nozick, Weber, Foucault ou Simone de Beauvoir.

Mas também um tempo em que a cidadania tem de ganhar novas formas de reflexão e intervenção, de modo a que possamos contar com o maior número de contributos de forma a garantir, de novo, o respeito pelas regras democráticas, mas também pelos direitos e garantias fundamentais dos cidadãos.

Paulo Vieira da Silva [sociólogo]

Paulo Vieira da Silva
Gestor de Empresas / Licenciado em Ciências Sociais – área de Sociologia
(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)

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